quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Fazendo a diferença

Montar uma planilha de treinos não é nenhum segredo, todo mundo faz mais ou menos a mesma coisa no triathlon. Um pouco mais de volume nas deficiências, um pouco mais de trabalho muscular de tempos em tempos, dependendo da prova alvo, todo mundo tem treino bem parecido.

Geneticamente falando também, somos muito equilibrados, a não ser que você seja um fenômeno mas, em geral, temos o mesmo potencial atlético. Então, o que faz com que uns cheguem em primeiro e outros em segundo, ou terceiro, etc ?

Em primeiro lugar, a vontade de treinar. Porque vontade de ganhar todo mundo tem na mesma intensidade. Então, o que vai fazer a diferença, no final das contas, é o quanto você treina e não é qualquer tipo de treino, não é sair treinando como louco, mas ter qualidade nos treinos. O campeão é aquele que persiste mais um pouquinho no esforço quando todo mundo desistiu. A diferença do campeão para o segundo lugar está nos pequenos detalhes. Por exemplo, num treino de força com subidas no pedal: o treino é fazer 10 vezes a subida. O campeão é aquele que faz todas as 10 subidas consciente, pensando na técnica em cada subida e que reserva para as 2 últimas, um esforço extra, só pra testar seus limites, estudar seu corpo. A maioria dos atletas vai cumprir sua obrigação, subir as 10 vezes como sempre fez, dentro de um esforço relativamente confortável. Veja que todo mundo nesse treino fez 10 subidas mas quem treinou melhor ?

Em segundo lugar, a cabeça. Definindo "cabeça" : confiança em si, mentalização positiva, equilíbrio. Confie em si : confie no quanto você treinou, conheça seus limites. Quando você estiver fazendo um tiro de VO2, na corrida por exemplo, vá até seu limite, teste seu corpo, veja qual é a diferença entre "estou passeando", "estou no limite", "estou quebrando", "quebrei". Mentalização : mentalize a prova, mentalize você superando suas maiores deficiências, mas mais importante, mentalize como você está se sentindo fazendo isso : bem, forte, confiante. Isso funciona! Equilíbrio : permita-se ter preguiça e descanse, permita-se sair com seus amigos, permita-se enfiar o pé na jaca de vez em quando, permita-se comer aquela pizza cheia de gordura trans com coca-cola (muito de vez em quando...).

Aprenda com os erros : tire lições de todas as dificuldades.Faça uma auto-análise : Onde errei ? Por que errei ? Como melhorar ? Pergunte ao seu técnico, leia artigos especializados, converse com quem faz direito, peça dicas. Tente melhorar sempre.

Mantenha-se motivado : participe de provas, estabeleça metas, busque desafios, assista provas e vídeos de provas de triathlon, às vezes eu assisto um e tenho vontade de pegar a bike e cair no mundo!

Essas são coisas que me parecem importantes, claro que não é tudo, mas é um bom começo.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Top 5 de todos os tempos no Ironman

Depois de assistir 14 dvds de Ironman do Hawaii (1994 a 2008), várias vezes cada um, me sinto habilitada a emitir minha opinião sobre os 5 melhores atletas, homens e mulheres, que competiram na Big Island. Coloquei também a lista dos 5 atletas que mais me inspiraram (e inspiram) de alguma forma.

Homens
  1. Dave Scott (o cara)
  2. Mark Allen (o guru)
  3. Peter Reid (a máquina)
  4. Thomas Hellriegel (o consistente)
  5. Luc Van Lierd (o mais rápido)

Mulheres

  1. Paula Newby Fraser (a rainha)
  2. Natascha Badmann (a guerreira)
  3. Chrissie Wellington (o fenômeno)
  4. Lori Bowden (a maratonista)
  5. Fernanda Keller (a consistente)

Inspiração Homem

  1. Mark Allen (tente novamente)
  2. Dave Scott (esporte é saúde)
  3. Peter Reid (sou de carne e osso)
  4. Marc Herremans (a vida segue)
  5. Dick Hoyt (eu consigo)

Inspiração Mulher

  1. Natascha Badmann (amo muito tudo isso)
  2. Chrissie Wellington (ainda posso fazer melhor)
  3. Heather Fuhr (seja humilde, seja competente)
  4. Julie Moss (cruze a linha de chegada)
  5. Sister Madonna Buder (só vou parar quando o Senhor me chamar)
(Sister Madonna Buder completou o Ironman do Canadá, no dia 30/08/2009 aos 79 anos de idade e diz que voltará no ano que vem para ser a mulher mais velha a completar um Ironman, aos 80 anos - seu segredo : ela treina religiosamente)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A história de um atleta em ambos os lados do P.S.

Por Samantha McGlone (triatleta profissional – campeã mundial do Ironman 70.3)

Se existe alguém que personifica a mentalidade de fazer o seu melhor em qualquer situação, essa pessoa é o meu amigo Josh Riff. Josh é um cara muito educado, humilde e amigável. Ele também é um homem de família, médico brilhante e um atleta fenomenal. Ele completou o Ironman do Hawaii em 10 horas enquanto era um médico residente em emergência, a qual é uma das ocupações mais estressantes e que exigem maior dedicação de tempo.
Mas em 2006 sua vida virou de ponta-cabeça quando ele foi atingido por um caminhão enquanto estava treinando há apenas 6 km de sua casa, alguns dias antes de ir para Kona [também conhecida como Big island - ilha do Ironman no Hawaii]. Sua perna quebrou em 2 lugares; os médicos disseram que ele nunca mais poderia voltar a competir. Esse seria o último Ironman de Josh porque sua esposa estava para ter neném alguns meses depois.
Um acidente como esse é sempre traumático, mas para Josh, acontecer nesse momento em especial foi de partir o coração, praticamente na véspera do seu canto do cisne, tendo treinado por tanto tempo e chegado tão perto.
Disseram a Josh que ele sequer poderia andar com a perna machucada por pelo menos 3 meses. Seu emprego, em uma sala enorme de emergência, exigia que ele caminhasse por 3 a 4,5 km por turno, impossível de ser feito quando se tem uma tala de perna inteira e muletas. Mas Josh é um tanto hiper-ativo e não do tipo que fica sentado sentindo pena de si mesmo esperando pela recuperação. Em um mês ele estava dando voltas na pista local de corrida nas suas muletas até que ele conseguisse completar 4.5km em uma perna.
Houve um pequeno contratempo quando, depois de 2 semanas de treinamento, ele escorregou e quebrou seu outro pé, mas Josh tinha a determinação e a teimosia que são a base de tantas histórias de sucesso. Para provar essa afirmação, ele logo estava dando voltas com suas muletas pelo hospital.
Dois anos depois, Dr. Riff tem uma nova carreira como médico diretor da Target Clinics (seu negócio atual) e ainda continua trabalhando na emergência. Seu filho agora é uma criancinha e ele tem um outro bebê a caminho, portanto ele continua tão ocupado como sempre. Mas depois de um ano de reabilitação, ele estava se mordendo para correr novamente.
Josh fez uma ½ maratona, com sua esposa e seu irmão, apenas para se divertir. Completou em 1h20. Isso o fez pensar que talvez ele ainda não tivesse terminado seu negócio com o triathlon. Os médicos haviam dito que ele não poderia correr novamente e eles estavam completamente errados. Ainda buscando por um epílogo, após perder sua última chance em Kona, ele perguntou a si mesmo se ainda poderia conseguir completar um último Ironman.
Fora do triathlon por 2 anos, Josh voltou a pedalar e começou a treinar para mais uma competição – sua meta era o IM Coeur d’Alene.
Num dia úmido, logo no início da temporada de treinos, ele se acidentou numa competição de ciclismo e mais uma vez terminou no lado errado do P.S. com uma fratura na região pélvica. Sua competição alvo foi adiada para o IM Arizona no final de novembro e ele apenas voltou a correr em agosto. Com a família crescendo e dois empregos esgotantes, Josh treinou não mais que 15 horas semanais. No dia da competição ele ainda não tinha completado um treino de corrida de mais de 24 km desde o acidente, 2 anos antes.
Ele terminou o IM Arizona em 9h29, seu novo record pessoal.
A história de Josh é uma grande lição sobre encontrar a linha prateada por entre as nuvens negras da chuva. Ao invés de ficar se lamentando, amargurado sobre seu primeiro acidente, Josh credita sua nova carreira a ele. Se ele não estivesse deitado no sofá, de saco cheio, percorrendo seus e-mails antigos não lidos, talvez ele nunca tivesse visto a oferta de emprego da Target. Ao invés de ficar remoendo a perda, ele focou na inesperada oportunidade para alavancar sua carreira.
Josh diz que o acidente lhe deu perspectiva (entendendo que, no final das contas, era só uma competição) e aprendeu a importância da “periodização da vida”, uma filosofia que, a meu ver, mais pessoas deveriam abraçar. Ele diz que existem momentos em que o nosso trabalho é a coisa mais importante; momentos em que é a sua família; e pode haver vezes em que o treinamento ganha prioridade, mas, definitivamente, não o tempo todo.
Este homem que uma vez espremeu 5 horas de sessões de Computrainer [bicicleta estacionária] entre os turnos do P.S. descobriu, voltando de uma lesão, que ele estava treinando menos mas mesmo assim, ficando mais rápido. Ele ainda podia ir lá, competir e curtir o triathlon sem devotar cada minuto livre para ele. Quando voltou a competir, se lembrou do que mais ele sentia falta no esporte – não as horas de treinos completados mas mais que isso, as amizades e a camaradagem que surge quando pessoas de todo o mundo se juntam para sofrerem juntas.
O acidente de Josh foi tão devastador porque ele achou que havia perdido sua última chance de competir. Tendo voltado para o triathlon com sucesso, com menos volume e mais equilíbrio, ele diz que outra viagem para a Big Island pode muito bem estar nos planos futuros.
“Triathlon é definitivamente mais que um hobby”, diz Josh, “ele se tornou um estilo de vida, mas nós todos devemos ter uma visão clara e escolher as prioridades. Se eu for para Kona, provavelmente não terei a mesma performance que tive no passado, mas tendo consciência de que eu faria esse Ironman como um marido, um pai, um executivo e um médico, essa performance significaria mais para mim do que um record pessoal”.

domingo, 27 de setembro de 2009

Periodização da vida

O triathlon é um esporte que, quando praticado com seriedade, exige uma grande dedicação. A maioria dos triatletas que eu conheço são pessoas determinadas, multiprocessadas (que gostam de fazer várias coisas ao mesmo tempo) e perfeccionistas. Nós depositamos uma quantidade grande de tempo e de energia no nosso esporte.

O triathlon faz parte do meu cotidiano, é minha higiene mental, ele me mantém em forma e saudável, por ele eu como e durmo bem, ele me ajuda a manter minha auto-estima elevada. Amo meu esporte, mas ele não é tudo.

Eu acho que é possível conciliar nossa vida de triatleta com nossa vida pessoal sem ficar devendo nada para nenhuma das duas. É uma questão de se organizar e de definir prioridades.

Outro dia li um artigo de um médico triatleta americano, ele sofrera uma série de acidentes que o impediam de treinar e, por conta disso, se dedicou a outros aspectos de sua vida, encontrando oportunidades que, do contrário, não teria tempo de procurar (um dia transcrevo a história dele num post que é incrível)...mas ele dizia que devemos periodizar nossa vida assim como as planilhas de treino são periodizadas de acordo com a temporada de competições : em alguns momentos devemos focar nossas energias no nosso trabalho (ou estudo), em outros, nas nossas relações humanas (família, amizades, namorado) e em outros no nosso esporte (Ironman) . Eu concordo com ele e acho que essa comparação foi muito bem sacada. No momento estou focando nas relações humanas e estou adorando e você ?

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Quando a USP fechou para as bicicletas

Quero escrever esse post para os velhos de guerra manterem fresco na memória o que aconteceu e para a nova geração conhecer a história e não deixar que as coisas cheguem ao ponto que chegaram.

No dia 25 de abril de 2005 a USP fechou para nós ciclistas. Foi um desespero total, assessorias, ciclistas, fabricantes de bike, mecânicos, lojistas, todo mundo contando o prejuízo. Nós fizemos rolo por muito tempo. Eu fiquei sócia do Clube Bandeirante de remo pra poder entrar, mas mesmo assim era encrenca (vai explicar porque eu tinha uma bike dentro do carro se eu era do remo...) não podíamos circular na avenida da raia olímpica, os guardinhas faziam barricada. Eu lembro do pessoal da MPR, que de alguma forma descolou uma carteirinha da USP, fazendo aula só lá no hospital universitário (HU), "escondido".
Nós parávamos o carro na rotatória do Instituto Oceanográfico e ficávamos circulando só de lá pra cima. E ficamos muito tempo fazendo isso.

Tudo começou com um tal de "pelotão da morte" que circulava à noite, eram centenas de ciclistas selvagens que infernizavam a vida dos USPianos. Eles pedalavam a 50km/h no meio dos carros, xingavam todo mundo, não respeitavam nada. De manhã também tinham pelotões grandes que atrapalhavam o trânsito dos carros, dos ônibus e dos pedestres. Tinha uma galera que fazia xixi na reitoria e não tava nem aí se tinha alguém olhando. Resumindo : os ciclistas eram odiados por todos e com razão.

A prefeitura da USP recebia milhares de reclamações diariamente até que eles cansaram e decidiram fechar a USP para as bicicletas. Foi uma loucura, reuniões e mais reuniões com todos os segmentos envolvidos e o prefeito da USP era irredutível. Apelaram para a reitoria, para o governador, para as rádios, jornais, políticos e nada. Bateu desespero. Fizemos uma bicicletada saindo do Jockey até a USP e dentro da USP fomos em passeata até a prefeitura universitária, eu estava lá, eu lembro de tudo e lembro que o Marcos Paulo também estava lá. A MPR foi uma das únicas assessorias a estarem presentes sempre em todas as lutas para reabertura e depois que reabriram, foi uma das únicas que seguiram as restrições à risca.

Eu lembro também que eu saí mandando e-mail pra todo lado, secretário de esportes, assessores, mandei um e-mail para o titio Marco Antonio da rádio Kiss FM explicando nossa situação periclitante, que por causa de uns babacas a gente estava sem poder treinar triathlon na cidade de São Paulo. Ele leu meu e-mail no ar, foi uma chuva de telefonemas e e-mails aquela noite (tanto de gente apoiando o fechamento como de gente apoiando a reabertura). Os caras da rádio ficaram bem felizes com a repercussão e me mandaram um par de convites para ir ao cinema (dã).

Depois de muita conversa, um projeto com regras e restrições foi redigido pelas assessorias, ciclistas, federação, lojistas, etc e com muitas pessoas influentes, conseguimos reabrir a USP.

Só podíamos ficar até às 6:45, não podíamos subir a biologia, não podíamos circular na rotatória da reitoria, não podíamos formar pelotão com mais de 4 integrantes e tínhamos que colocar uma placa com número fornecida pela federação paulista de ciclismo. Para obter essa placa, tínhamos que nos cadastrar num sistema informatizado e retirá-la em algumas lojas de ciclismo. Ainda existem uns ciclistas que circulam com essa plaquinha por lá, eu guardei a minha como recordação. Na verdade, essas restrições ainda estão de pé e vira e mexe o pessoal da USP ameaça as assessorias de fechar de novo a USP por conta de ciclistas mal educados e sem noção.

Durante a semana, quem trabalha não tem outro lugar para treinar na cidade de São Paulo. A USP é nossa jóia. Vamos respeitá-la, tratar bem os pedestres, respeitar a circulação de automóveis, respeitar os corredores de sábado, agradecer os motoristas de ônibus que são bacanas, ignorar as ofensas dos estressados, não pedalar além das 7h da manhã, não circular na biologia (os motoristas de ônibus agradecem) e evitar grandes pelotões. É o mínimo que podemos fazer para que isso não aconteça nunca mais.