
Às vezes, uma bela desistida antes de uma prova é o melhor a fazer. Por vários motivos: não conseguiu treinar o suficiente, se machucou, a grana encurtou, o plano mudou. Depois de muito refletir e considerar, às vezes a gente chega à conclusão de que desistir é o mais justo.
O atleta que "samba" todo dia pra dar conta do trabalho, família, convívio com amigos, trânsito, falta de tempo, dinheiro, etc e ainda consegue espremer aquele treininho no meio disso tudo, quando está presente na linha de largada de uma prova, já é um vencedor.
Muitas coisas podem acontecer no meio do caminho, entre a inscrição de uma prova e chegar o grande dia há uma infinidade de variáveis que podem "despirocar" e tudo pode vir por água abaixo.
Natascha Badmann, 6 vezes campeã mundial do Ironman do Hawai, disse uma vez numa entrevista que, para ela, a parte mais massacrante do triathlon eram os treinos, a monotonia, o cansaço acumulado, as dores. Disse que no dia da prova era só alegria, era a parte mais divertida. Talvez por isso mesmo ela sempre competia (compete ainda) com um famoso sorriso no rosto.
Em 2004 ela chegou em segundo lugar no Hawai, sendo que ela tivera um dia de competição perfeito, tinha dado tudo certo e ela tinha se sentido muito bem. Chegou comemorando e distribuindo sorrisos. Quem chegou em primeiro lugar foi a alemã Nina Kraft, seu desempenho fora espetacular, muito acima de todos os seus últimos resultados, ultrapassou vários homens. Não foi surpresa quando, mais tarde, Nina Kraft foi pega no exame anti-dopping pela substância EPO, perdendo o título e sendo banida por 2 anos do circuito Ironman. É claro que um título de campeã mundial é sempre sinônimo de vantagens financeiras para o atleta, patrocínios mais gordos, etc. Mas será que para a Natascha fez muita diferença ter chegado em primeiro ou em segundo? Ela comemorou muito com seu marido-técnico e estava verdadeiramente feliz na entrevista pós-prova. A impressão que deu foi de que, para ela, ter feito o que ama de forma prazerosa já foi satisfatório. Receber,meses depois, o título mundial, realmente foi um plus.
Tenho visto muita gente extremamente ansiosa para uma prova de triathlon, principalmente se é uma nova distância, um novo desafio. Até aí ok, quem não fica ansioso em véspera de prova? Sabe-se lá o que o dia de competição trará. Mas se você se preparou, conseguiu cumprir os treinos no meio do turbilhão de compromissos do dia a dia, não ficou doente, não se machucou, enfim, se não desistiu por ordem do imponderável, está na linha de largada esperando a buzina, meu caro ou minha cara atleta, já é uma vencedora, pode começar a sorrir e a curtir tudo, porque todo o resto que vier a acontecer na prova (inclusive terminá-la) será plus.

Christopher McDougal: descobri que ele corria descalço ou com uma espécie de sandália primitiva de uns índios mexicanos ultracorredores chamados Tarahumaras, ou com a Vibram Five Fingers. Peguei o nome dele e fiz uma pesquisa específica no Google, descobri que ele tinha lançado um livro chamado “Born to Run”, que era um Best Seller e estava gerando a maior discussão no meio esportivo lá nos EUA. Fiquei intrigada pelo sujeito e assisti algumas palestras e entrevistas suas no Youtube. Jornalista, ex-correspondente de guerra, corredor alto e pesado, ficou inconformado com um conselho que seu médico lhe deu depois de várias lesões nas pernas e pés : “desista de correr, você não foi feito pra isso”. Na sua busca para responder a pergunta: “Por que meus pés doem?” ele acabou vivenciando e pesquisando muitas coisas e escreveu esse livro.

